Eternizar um papel no imaginário do público: um marco que muitos atores lutam uma vida inteira para alcançar, Karol Lannes conseguiu a proeza com apenas 12 anos. Em 2012, ela emprestou sua precoce genialidade à Ágata, filha de Carminha no clássico “Avenida Brasil”, novela que a TV Globo exibe novamente no “Vale a Pena Ver de Novo” a partir do dia 30 de março.
A nova reprise do folhetim coincide com um momento próspero na carreira de Karol. Só neste ano, ela estreia dois novos projetos, dos quais fala muitíssimo empolgada nesta entrevista ao Purepeople. “É o primeiro ano desde ‘Avenida Brasil’ que eu tenho tantos projetos acontecendo. Eu estou muito feliz, em um momento super realizado”, comemora.
Atualmente, Karol grava a série “Os 12 Signos de Valentina”, da Netflix. Protagonizada por Giovanna Grigio, a obra é baseada no livro de Ray Tavares. A artista interpreta Jussara, uma chefe de RH de 27 anos. Segundo a plataforma de streaming, o lançamento deve ocorrer ainda em 2026.
Karol também será vista nos cinemas este ano com o filme “Nico”, que marca o reencontro com Murilo Benício, que fez Tufão no fenômeno global. Pai e filha em 2012, os dois serão vistos em cenas mais cômicas. “Foi incrível poder rever o Murilo Benício depois de tantos anos e a gente ter uma relação, não só com aquele carinho de pai e filha, mas com mais provocação, deboche. Então, foi muito legal acessar esse lugar com ele.”
Se na Netflix, a idade é 27, nos cinemas, a personagem tem 16 anos, o que exigiu uma caracterização e uma preparação bem específicas. “Isso que dá um gás pra gente como ator, poder acessar essas diversas áreas em um curto espaço de tempo”, destaca.
Nas redes sociais, Karol encontrou uma nova forma de expressar sua arte e confirmar ao grande público que ainda estava na ativa. Com o sucesso da primeira reprise de “Avenida Brasil”, em 2019, e invadida pela saudade de atuar, ela decidiu investir em conteúdos para a web.
“Eu estava no segundo ano de faculdade, estava meio off, fazendo licenciatura, ainda estava pensando o que eu ia fazer da vida, trabalhando como DJ e professora de inglês. Estava me descobrindo como artista com meus próprios pés. Porque quem trabalha desde criança sempre fica com essa questão: ‘Será que sou eu? Será que é só o que eu sei fazer?’.”
Hoje, Karol se destaca no Instagram e no TikTok com conteúdos de humor, lifestyle e reflexões sobre temas sociais. São mais de 800 mil seguidores, somadas as duas redes sociais. Com a repercussão, a artista foi apresentada a um público mais jovem, que pouco entende a proporção de um fenômeno de TV aberta.
“A geração mais nova me conhece muito mais do TikTok que da novela. É um jeito de acessar uma nova geração que uma hora vai ver um filme comigo, uma novela”, aponta Karol.
O timing diferenciado de comédia, que gera muita identificação com a geração Z, foi lapidado com o incentivo do amigo Luis Mariz, dono de um perfil com mais de 14 milhões de seguidores só no TikTok e sua dupla em alguns dos vídeos mais famosos. “Ele foi me mostrando que essa pessoa que eu sou, eu poderia trazer para a rede social.”
Karol enxerga as redes como uma vitrine para seu catálogo de atriz. “Acho que as pessoas se identificam muito com nosso trabalho quando elas se identificam com a gente”, defende. Mas o sucesso da internet vem acompanhado de um rótulo que divide opiniões: o de influenciadora.
Ela prefere se definir como criadora de conteúdo, mas admite que precisou desmistificar os próprios preconceitos para se assumir nesta posição. “Se vai influenciar alguém ou não? Eu não quero que as pessoas aceitem minhas opiniões, quero que elas discutam minha opinião e deem a delas”, reflete.
Em 2027, a Globo vai exibir uma continuação de “Avenida Brasil” - uma ideia tão aguardada quanto arriscada. Carminha (Adriana Esteves) e Tufão (Murilo) já estão confirmados, enquanto outros personagens famosos, como Max (Marcello Novaes), Mãe Lucinda (Vera Holtz) e Nilo (José de Abreu), devem ficar de fora.
Karol não esconde o desejo de interpretar Ágata novamente - tanto que decidiu correr atrás da informação. No entanto, o clima na Globo é de total mistério.
“Eu pedi para minha agência entrar em contato para saber. E está tudo extremamente: ‘não vamos falar sobre isso’. Eu acho que existe a possibilidade de que seja outra atriz e talvez a personagem tenha um destaque muito grande na trama. Não sei se eles vão abrir teste, se eles querem ver se eu realmente estou preparada para isso. E está tudo bem! Já botei na minha cabeça que se for para ser, vai ser. Se não for, eu vou assistir, rir e comentar igual. Mas quero sim ter essa oportunidade, nem que seja de testar”, informa.
Afinal, por que uma atriz tão promissora e com três novelas icônicas no currículo (“Duas Caras”, “Ciranda de Pedra” e “Avenida Brasil” - ela ainda fez “Tempos Modernos”, folhetim das 19h que dividiu opiniões) está há tanto tempo afastada da TV aberta? Karol aponta possíveis motivos, mas prefere não conspirar muito.
“Eu lembro que, na época de ‘Avenida Brasil’, eu ouvia esse papo de que quem faz uma novela e fica muito marcado, depois demora [a voltar à TV], precisa sair do personagem, precisa mudar muito. Eu sinto que, desde ‘Avenida Brasil’, eu nunca mudei 100%. Eu nunca deixei de ser, por exemplo, uma mulher acima do peso. Já tive épocas de estar mais magra ou mais gorda, mas sempre fui uma pessoa fora do padrão. Não sei se esse é o motivo de eu ainda ser taxada como Ágata. Eu acredito que não, porque eu fiz outros trabalhos no streaming, fiz teste para algumas novelas, essa movimentação aconteceu. Realmente, eu só sinto que não era o timing.”
As personagens mais populares de Karol - além da Ágata, ela também interpretou Marcelina criança em “Minha Mãe é Uma Peça”, visto por 4 milhões de espectadores apenas no cinema - têm em comum o bullying das próprias mães por conta do sobrepeso.
Mais de 10 anos depois e diante do avanço das discussões sobre gordofobia e body positive na sociedade, Karol se emociona ao falar do principal legado de sua personagem em “Avenida Brasil”. Ela recebe com frequência recados de mães que, através do comportamento hostil de Carminha para com Ágata, mudaram a forma de tratar os próprios filhos.
“Graças à Ágata, eu tive um entendimento muito cedo do impacto da minha profissão. Por ter sido uma personagem emblemática, sofrida e com identificação, eu recebia esse feedback das pessoas e comecei a entender que o que eu faço não é só entretenimento. Muda a cabeça das pessoas. Foi uma mãe que enxergou e pensou: ‘Eu não quero ser assim com meu filho’.”
As cenas de Carminha e Ágata também são resultado da parceria entre as atrizes nos bastidores. Karol lembra com carinho de Adriana e destaca os cuidados maternos que recebeu da colega de cena.
“A gente tinha uma relação de carinho, de tirar cochilo no camarim, de estar mais próxima. Ela sempre fazia questão de conversar antes das cenas difíceis. ‘Olha, você sabe que eu te acho linda, uma pessoa incrível, inteligente’. E eu sempre soube separar muito bem o que era realidade da novela. ‘Avenida Brasil’ foi minha quarta novela, então, eu não estava crua. Era gostoso, a gente terminava a cena falando: ‘Ai, a gente arrasou’.”
Mesmo que a diversidade no audiovisual ainda caminhe a passos tímidos, Karol celebra que corpos fora do padrão hoje são retratados muito além da temática do bullying. “A gente consegue ver atores e atrizes fora do padrão em personagens da vida real. A gente sabe que na vida real tem gorda pilantra, que dá para todo mundo, que é gostosa. Tem preto rico, manipulador, tem gay safada e trambiqueira. A gente precisa dessa representatividade. Eu quero que os projetos retratem a vida real e não só esse imaginário”, pontua.
Independente da plataforma, Karol fala da missão da sua arte firme como uma veterana, mas com o brilho no olhar de quem está disposta a trilhar muito mais em sua trajetória. “Eu não tenho mais nenhuma dúvida na minha cabeça de que esse é o meu propósito de vida: transformar tudo que eu sinto e o que o mundo traz em arte e devolver isso de alguma maneira. Isso que me dá vontade de acordar.”